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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

EDSON NÉRIS É CADA UM DE NÓS - Por Márcio Retamero


No dia 06 de fevereiro de 2000, há dez anos, um homossexual chamado Edson Néris da Silva foi brutalmente assassinado por uma gangue de skinheads na Praça da República, centro de São Paulo. O motivo? Passava pela praça de mãos dadas com seu namorado Dario Pereira Netto. Bastou isso para que um bando de mais de trinta "carecas" voasse em cima dos dois munidos de correntes, soco inglês, chutes e pontapés. Dario conseguiu fugir, mas Edson foi espancado até a morte.
Um vendedor ambulante que estava no local e presenciou tudo, foi o ser humano que agiu como o "bom samaritano" da parábola dos Evangelhos. Seguiu o grupo até um bar no bairro do Bexiga, onde tranquilamente tomariam cervejas, provavelmente comemorando o ato. Ele telefonou para a polícia, que cercou o bar, prendendo cerca de vinte dos integrantes do grupo "Carecas do ABC". Desses vinte, apenas três foram condenados, dois deles a vinte e um anos de prisão; dez anos depois todos estão soltos.
O promotor, Dr. Marcelo Milani, que ofereceu denúncia contra os três réus foi considerado, por muitos, um herói na época. Durante todo o processo ele conduziu o crime praticado pelos carecas como um crime de ódio, tipologia criminal inexistente no Brasil. É dele a frase que ficou famosa: "Se os carecas podem andar pelas ruas com suas camisetas, botas, anéis que os identificam como neonazistas, os homossexuais também podem andar de mãos dadas". Não tenho dúvidas: não fosse a linha de acusação que o Dr. Milani tomou, este caso seria mais um impune no nosso país.
O crime correu nas manchetes de jornal, revistas (a revista Época ganhou um prêmio de uma importante ONG LGBT pela cobertura do caso) e órgãos internacionais de Direitos Humanos acompanharam de perto e com atenção o caso, tudo isso devido ao intenso trabalho da militância do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). De Norte a sul do Brasil discutia-se questões como orientação sexual, direito das minorias e a palavra homofobia entrou para o dia-a-dia dos meios de comunicação e no linguajar político da militância.
Dias após o crime, um grupo de quinhentas pessoas se reuniu na Praça da República para uma vigília em memória de Edson Néris; contudo, um grupo bem maior de homossexuais a poucos metros dali, na Av. Vieira de Carvalho, levava a vida como se nada tivesse acontecido, curtiam a noite com gargalhadas e cervejas e se recusaram a participar do ato, segundo denúncia do nosso premiado escritor João Silvério Trevisan em artigo escrito naquele contexto. Neste artigo contundente em que denunciava também o oportunismo e as divisões dos grupos da militância LGBT numa disputa que Trevisan chamou de "inflação fálica", o autor afirmava: "Edson Néris é cada um de nós".
Dois anos antes do assassinato brutal do nosso adestrador de cães (essa era a profissão do Edson) no dia 12 de outubro de 1998, falecia no Hospital Proude Valley, no estado do Wyoming, EUA, o estudante universitário Matthew Shepard (foto à direita). Matthew foi torturado e espancado por dois jovens. Motivo? Era gay, tal como o nosso Edson Néris.

Poucas são as diferenças entre Shepard e Néris: econômica, social, geográfica. Muitas as semelhanças: ambos eram cristãos; o americano era evangélico e Néris era mórmom; ambos gays e ambos foram assassinados por serem homossexuais. As consequências da morte traumática de ambos abrem um imenso abismo entre os dois: o americano, além de milhares de sites em sua memória, fundações em defesa dos direitos humanos LGBT, memoriais erguidos que recordam à sociedade o que aconteceu para que não se repita o mesmo ato hediondo, três filmes e uma lei com seu nome, o "Matthew Shepard's Act", assinada em outubro de 2009 pelo presidente Barack Obama. A lei, inédita nos EUA, ciminaliza a homofobia.
Do lado de baixo do Globo, Edson Néris não ganhou nenhum site em sua homenagem (busquei sem sucesso no Google); nenhum memorial, por mais que Ricardo Agueiras tente até hoje, foi erguido; nenhum filme, nem sequer um documentário... Sim, existe o Instituto Edson Néris, mas você que é LGBT e que não faz parte da militância, sabia dessa informação ou sabe quais são as atividades do IEN? Por que ainda não temos um memorial ao Edson, conforme noticiado aos quatro ventos na primeira Conferência Nacional LGBT? O mármore rosa já foi garantido pelo Grupo Gay da Bahía, Estado de origem da família do Edson. Por que ainda não foi construído? Por que a Câmara de Vereadores de SP ou a Prefeitura de SP ou o Governo do Estado de SP nada fizeram até hoje em homenagem ao Edson? Nem mesmo a Lei 10.948/01, que trata da penalização por atos homofóbicos no Estado de SP, leva o nome da vítima assassinada no mais emblemático caso de crime de ódio praticado nesse Estado!
Nos EUA, onze anos depois do assassinato de Matthew Shepard, o presidente Barack Obama assinou a lei que criminaliza a homofobia. No Brasil, dez anos depois do assassinato de Edson Néris, o PLC 122/06 continua parado no Senado pelo vergonhoso trabalho dos senadores evangélicos. Magno Malta mais uma vez conseguiu adiar a votação do PLC 122/06 na Comissão, convocando audiência pública para "debater" o tema da matéria, convidando para isso, um dos maiores inimigos da comunidade LGBT brasileira, o Pastor Silas Malafaia! Isso é um deboche! Um absurdo!
Parte da militância LGBT diz que jamais vivemos um período político como o atual. O Governo Federal, dizem alguns, é o governo mais pró-LGBT que já tivemos em nossa história - e isso não é de todo uma inverdade - mas eu pergunto: este governo que já conseguiu tantas vitórias no Legislativo em suas matérias de interesse; este governo que já foi acusado de passar como um "rolo compressor" na oposição no Congresso Nacional; este governo que elaborou o Programa Brasil sem Homofobia; por que ainda não conseguiu, com seus aliados, passar o PLC 122/06? Sim, porque eu só vejo e ouço os senadores Magno Malta e Marcelo Crivella trabalharem contra e conseguindo parar as votações! Somente os dois têm tanto poder assim? Detalhe: Crivella é o candidato do Lula ao Senado no Rio de Janeiro! Pode isso no governo mais pro-LGBT que o Brasil já conheceu?
Na real, falta é interesse e trabalho com afinco! Faço minhas as palavras de João Silvério Trevisan e pergunto: "Quantos 'Edsons' ainda terão que morrer até tomarmos consciência de quem somos e lutarmos por nosso amor?"

* Márcio Retamero, 35 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói,RJ. É Pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro - uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva, desde o ano de 2006. É, também, militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos. Conferencista sobre Teologia, Reforma Protestante, Inquisição, Igreja Inclusiva e Homofobia Cristã. Seu e-mail é: revretamero@betelrj.com.

** O artigo foi extraído, com autorizaçao do autor, da Revista A Capa - 11/02/10: http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=10284

sábado, 16 de janeiro de 2010

JAIME


Os sábios resplandecerão, como o resplendor do firmamento;
e os que ensinam a muitos a justiça,
brilharão como as estrelas, por toda a eternidade
.
(Dn 12,3)


1970. Mudanças de valores nas sociedades ocidentais. Afirmação da juventude. "Movimento" hypie. Renovação na Igreja Católica. Guerras e engajamentos pela Paz.
América Latina: lutas de libertação e pela construção do socialismo. Sanguinárias ditaduras militares, apoiadas pelos Estados Unidos. Comprometimento político mais progressista da Igreja Católica - a Teologia da Libertação - as Comunidades Eclesiais de Base.
Brasil: a fase mais feroz da ditadura civil-militar. A Igreja Católica e as Igrejas Reformadas históricas e outras como a Metodista vão se tornando a grande força de enfretamento à ditadura e passando a caminhar com o povo, preferencialmente em suas camadas mais pobres. As revelações dos Festivais da Canção: Chico Buarque, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Elis Regina...

No município de São Gonçalo, no bairro da Venda da Cruz, no alto do Morro do Sabão, havia a pequena capela de Nossa Senhora de Fátima (99 degraus altos, da baixada até a igrejinha). Para lá o Bispo mandou um padre que considerava incômodo, pra se ver livre. Mas logo o povo do morro começou a participar, o povo da baixada começou a subir e se organizou a "Comunidade Missionária Nossa Senhora de Fátima da Venda da Cruz", conhecida por não vender sacramentos (nenhum sacramento era cobrado), por sua pastoral com jovens e crianças e pelas velhas boas de trabalho. E pela liturgia participativa, mais engajada na vida. E, sobretudo, pela pobreza: só entrava a grana necessária para assegurar os trabalhos. Nunca sobrou... Nem faltou!
Havia um grupo de jovens, o Juvenil. E também alguns jovens engajados que não participavam do Juvenil. Os jovens independentes coordenavam a vitrine da Comunidade: a Missa dos Jovens, onde se faziam as experiências litúrgicas mais avançadas e politizadas. Como não tinham nenhuma estrutura formal para engessá-los, eram mais ágeis, autônomos na formação e com trânsito mais livre na juventude que não participava da Igreja. Assim, foram crescendo e ficando conhecidos como "a Turma".
Num domingo 10 de dezembro, aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - na Missa dos Jovens que desenvolvia esse tema - Jaime apareceu. A partir daí foi chegando, devagar, se aproximou da Darli, da Leila e, via elas, se enturmou.
Era de Sergipe, único homem entre muitas irmãs, foi o último a vir pro Rio de Janeiro pra estudar e conseguir trabalho melhor. Em Sergipe ficaram apenas os pais e a irmã mais nova. Estudava na Universidade Rural. Tinha o olhar e o sorriso (permanente no seu rosto) marcantemente sinceros, verdadeiros, francos. Uma grande lealdade e solidariedade. Também marcante o seu senso de humor. Bom observador, tinha um apelido bem humorado para cada um, sempre a partir de uma característica da pessoa. Era tímido, mas logo se tornou uma das principais lideranças da turma. Para "conferir" o nosso discurso, leu a Bíblia inteira em poucos meses. Era de formação marxista. O Evangelho de Jesus de Nazaré tornou-se norte de sua vida e inspirador do seu compromisso com os pobres e todos os marginalizados, numa perspectiva libertadora e não-violenta. Estava sempre indicando ou emprestando um livro a alguém, recomendando uma peça de teatro ou um filme. Era especialista em falar a linguagem do outro.
Após dois anos na Venda Cruz, foi aprovado num concurso da Caixa Econômica e mandado para Porto Alegre. Lá continou o engajamento na Igreja entre os jovens. Dois anos depois, voltou.
Ficou mais dois anos e se transferiu para Brasília. Ali começou a atuar junto às prostitutas.
Tendo como companheira uma das meninas da zona que conheceu em Brasília, foi para Unaí, sudoeste de Minas. Ali nasceu seu primeiro filho. Mais tarde, separado, retornou a Sergipe, com o filho, onde constituiu nova família e teve mais três filhos.
Jaime escreveu e publicou poesias, nas quais os excluídos são personagens recorrentes. Tornou-se uma grande liderança sindical entre os bancários no Nordeste, manteve a militância na Igreja.
A partir de sua volta para Sergipe, perdemos o contato. Mas sempre permaneceu o meu melhor Amigo.
Em março do ano passado encontrei com uma de suas irmãs e recebi a noticia da morte (prefiro dizer "Páscoa") de Jaime, por complicações cardíacas, ocorrida em 16 de janeiro, aos 58 anos.
Hoje, 1 ano de sua Páscoa, a saudade fica mais à flor da pele, mas o sentimento de sua Presença querida também. E decidi compartilhar isso com vocês, essa Memória que nos empurra para frente, para a revisão e aprofundamento das coisas nas quais acreditamos e esperamos, como homenagem ao Jaime Norberto (da Silva, como tantos e tantos brasileiros). E como demonstração de que existem por aí, felizmente, pessoas de diferentes idades que se incomodam com a injustiça, a miséria e outras mazelas do mundo humano, pessoas que não ficam reclamando mas se engajam, se comprometem, se solidarizam e começam a Nova Sociedade justa, fraterna partindo delas mesmas. Nada do que disse Jaime deixou de viver pessoalmente. Isso lhe assegurou autoridade e credibilidade. Sua Memória é uma das memórias fundamentais nestes tempos de euforia consumista confundida com felicidade, de extremado individualismo e alienação de indivíduos e instituições.
* ATENÇÃO: para ver o vídeo, dê pausa na música, no rodapé do Blog.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009






TODA PESSOA TEM DIREITO À VIDA, À LIBERDADE E À SEGURANÇA PESSOAL
(Art. III da Decl. Univ. dos Direitos Humanos)




Hoje, 10 de dezembro, é aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por isso inauguro hoje este Blog, esperando que ele seja um pequeno instrumento a serviço desses Direitos, da defesa da Vida e da Dignidade da Pessoa Humana. Um mínimo tijolinho na construção de uma Humanidade melhor a partir do nosso Aqui e Agora, sem pretensões.

O quadro não é animador: a própria ONU denuncia que mais de 1 bilhão de pessoas no planeta subvivem abaixo da linha da pobreza; guerras e conflitos do gênero envolvendo lutas por terra, pelo direito de se constituir como nação, questões religiosas, hegemonia econômica e/ou militar - entre outras causas - se espalham pelo mundo.

No Brasil ainda há famintos, um sistema de saúde pública precário, violência no campo e na cidade, políticas de segurança baseadas na matança, tortura em delegacias, presídios e abrigos para menores, violência contra a mulher e contra os gays e se fôssemos listar tudo o espaço, obviamente, seria insuficiente. Além disso, as gritantes violações dos Direitos e da Dignidade de pessoas, grupos e segmentos sociais são por demais evidentes.

Fica aqui um convite a abrirmos mais os olhos ao redor, a manter viva a nossa capacidade de indignação, a superar a indiferença, a descrença e os medos, a superar sobretudo o individualismo e a acomodação. É bom lembrar sempre: não acontece somente com os outros: qualquer um de nós pode se tornar soropositivo em relação ao HIV ou ser atingido por uma "bala perdida".

Fica também uma homenagem a todos e todas que se comprometeram e se comprometem com a defesa dos Direitos Humanos na imagem de D. Hélder Câmara, Ernesto "Che" Guevara e Mercedes Soza, queridas e eternas Presenças.
- Link para o texto da DDH: