sábado, 16 de janeiro de 2010

JAIME


Os sábios resplandecerão, como o resplendor do firmamento;
e os que ensinam a muitos a justiça,
brilharão como as estrelas, por toda a eternidade
.
(Dn 12,3)


1970. Mudanças de valores nas sociedades ocidentais. Afirmação da juventude. "Movimento" hypie. Renovação na Igreja Católica. Guerras e engajamentos pela Paz.
América Latina: lutas de libertação e pela construção do socialismo. Sanguinárias ditaduras militares, apoiadas pelos Estados Unidos. Comprometimento político mais progressista da Igreja Católica - a Teologia da Libertação - as Comunidades Eclesiais de Base.
Brasil: a fase mais feroz da ditadura civil-militar. A Igreja Católica e as Igrejas Reformadas históricas e outras como a Metodista vão se tornando a grande força de enfretamento à ditadura e passando a caminhar com o povo, preferencialmente em suas camadas mais pobres. As revelações dos Festivais da Canção: Chico Buarque, Geraldo Vandré, Milton Nascimento, Elis Regina...

No município de São Gonçalo, no bairro da Venda da Cruz, no alto do Morro do Sabão, havia a pequena capela de Nossa Senhora de Fátima (99 degraus altos, da baixada até a igrejinha). Para lá o Bispo mandou um padre que considerava incômodo, pra se ver livre. Mas logo o povo do morro começou a participar, o povo da baixada começou a subir e se organizou a "Comunidade Missionária Nossa Senhora de Fátima da Venda da Cruz", conhecida por não vender sacramentos (nenhum sacramento era cobrado), por sua pastoral com jovens e crianças e pelas velhas boas de trabalho. E pela liturgia participativa, mais engajada na vida. E, sobretudo, pela pobreza: só entrava a grana necessária para assegurar os trabalhos. Nunca sobrou... Nem faltou!
Havia um grupo de jovens, o Juvenil. E também alguns jovens engajados que não participavam do Juvenil. Os jovens independentes coordenavam a vitrine da Comunidade: a Missa dos Jovens, onde se faziam as experiências litúrgicas mais avançadas e politizadas. Como não tinham nenhuma estrutura formal para engessá-los, eram mais ágeis, autônomos na formação e com trânsito mais livre na juventude que não participava da Igreja. Assim, foram crescendo e ficando conhecidos como "a Turma".
Num domingo 10 de dezembro, aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - na Missa dos Jovens que desenvolvia esse tema - Jaime apareceu. A partir daí foi chegando, devagar, se aproximou da Darli, da Leila e, via elas, se enturmou.
Era de Sergipe, único homem entre muitas irmãs, foi o último a vir pro Rio de Janeiro pra estudar e conseguir trabalho melhor. Em Sergipe ficaram apenas os pais e a irmã mais nova. Estudava na Universidade Rural. Tinha o olhar e o sorriso (permanente no seu rosto) marcantemente sinceros, verdadeiros, francos. Uma grande lealdade e solidariedade. Também marcante o seu senso de humor. Bom observador, tinha um apelido bem humorado para cada um, sempre a partir de uma característica da pessoa. Era tímido, mas logo se tornou uma das principais lideranças da turma. Para "conferir" o nosso discurso, leu a Bíblia inteira em poucos meses. Era de formação marxista. O Evangelho de Jesus de Nazaré tornou-se norte de sua vida e inspirador do seu compromisso com os pobres e todos os marginalizados, numa perspectiva libertadora e não-violenta. Estava sempre indicando ou emprestando um livro a alguém, recomendando uma peça de teatro ou um filme. Era especialista em falar a linguagem do outro.
Após dois anos na Venda Cruz, foi aprovado num concurso da Caixa Econômica e mandado para Porto Alegre. Lá continou o engajamento na Igreja entre os jovens. Dois anos depois, voltou.
Ficou mais dois anos e se transferiu para Brasília. Ali começou a atuar junto às prostitutas.
Tendo como companheira uma das meninas da zona que conheceu em Brasília, foi para Unaí, sudoeste de Minas. Ali nasceu seu primeiro filho. Mais tarde, separado, retornou a Sergipe, com o filho, onde constituiu nova família e teve mais três filhos.
Jaime escreveu e publicou poesias, nas quais os excluídos são personagens recorrentes. Tornou-se uma grande liderança sindical entre os bancários no Nordeste, manteve a militância na Igreja.
A partir de sua volta para Sergipe, perdemos o contato. Mas sempre permaneceu o meu melhor Amigo.
Em março do ano passado encontrei com uma de suas irmãs e recebi a noticia da morte (prefiro dizer "Páscoa") de Jaime, por complicações cardíacas, ocorrida em 16 de janeiro, aos 58 anos.
Hoje, 1 ano de sua Páscoa, a saudade fica mais à flor da pele, mas o sentimento de sua Presença querida também. E decidi compartilhar isso com vocês, essa Memória que nos empurra para frente, para a revisão e aprofundamento das coisas nas quais acreditamos e esperamos, como homenagem ao Jaime Norberto (da Silva, como tantos e tantos brasileiros). E como demonstração de que existem por aí, felizmente, pessoas de diferentes idades que se incomodam com a injustiça, a miséria e outras mazelas do mundo humano, pessoas que não ficam reclamando mas se engajam, se comprometem, se solidarizam e começam a Nova Sociedade justa, fraterna partindo delas mesmas. Nada do que disse Jaime deixou de viver pessoalmente. Isso lhe assegurou autoridade e credibilidade. Sua Memória é uma das memórias fundamentais nestes tempos de euforia consumista confundida com felicidade, de extremado individualismo e alienação de indivíduos e instituições.
* ATENÇÃO: para ver o vídeo, dê pausa na música, no rodapé do Blog.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

NICAN MOPOHUA



Em 12 de dezembro passado, comentamos sobre a Virgem de Guadalupe na postagem TLECUANTLAPCUPEUH. A história do ícone está contada num pequeno livro escrito no idioma asteca náhuatl, NICAN MOPOHUA (Aqui se narra, em ordem...), escrito por volta de 1545, 14 anos após a aparição, por um frade asteca, Antonio Valeriano. A versão em português apresentada foi feita a partir do texto em castelhano, por sua vez tradução do original asteca. É uma obra de grande beleza, da mais bela poesia e um excelente retrato da cultura, da religiosidade e da mitologia e símbolos astecas. Para conhecer esse fascinante relato, acesse: http://www.4shared.com/file/196071773/669af0cf/NICAN_MOPOHUA.html

sábado, 2 de janeiro de 2010

PARA TODOS











Quando um ano termina a regra geral são os votos (desejos) de prosperidade, felicidade,
realização de sonhos, paz... Geralmente em caráter pessoal. Isso é legítimo, mas não estamos sozinhos no Planeta e - ao contrário do que a propaganda capitalista nos convence -, nossa prosperidade, nossa felicidade, nossos sonhos e nossa paz dependem também dos outros e daqueles que elegemos para legislar e governar. E do poder judiciário, que não elegemos. E hoje, a poluição que assegura o progresso da China - do outro lado do mundo - provoca enchente na minha rua, deste lado do mundo! Daí que, se queremos seriamente realizar esses desejos (na verdade, necessidades), é hora de pensar e agir coletivamente. Começa pela participação na Associação de Moradores, no Sindicato, no Diretório Estudantil, num grupo específico (mulheres, negros, gays, etc...). Prossegue pela participação nas questões do país e em relação ao resto do Planeta.
No Brasil entramos em um ano privilegiado para assegurar a prosperidade, a felicidade, os sonhos e a paz nos 4 anos seguintes: em 2010 escolheremos Presidente da República, Governos estaduais, Deputados estaduais e federais, Senadores. As elites econômicas e, por participação e extensão, as da mídia, já têm seus candidatos, as campanhas que vão patrocinar com muito dinheiro. Elas já sabem quem pode assegurar-lhes mais prosperidade, felicidade, sonhos concretizados e paz (entenda-se "paz" como segurança pública e "publica" como "exclusivamente delas"). E nós?...
Nas próximas postagens desenvolveremos mais as questões citadas e embutidas aqui, sobretudo as mais diretamente vinculadas às eleições (afinal, não quero cair na miséria, ser infeliz, afundar na frustração e/ou ser vítima da violência generalizada nos próximos 4 anos só porque você votou mal ou anulou seu voto!)

E, já que estamos falando em participação, se você ainda acha que os telejornais são confiáveis e acredita na "simpatia" dos apresentadores, veja no vídeo abaixo o que eles pensam do nosso povo - de mim, de você (e os da Globo, do SBT, da Record não são diferentes). Participe e defenda sua dignidade enviando um email para a Band exigindo a demissão do ancora como prova de não conivência.
(ATENÇÃO: Para assistir ao vídeo, desligue a Música, no rodapé do Blog)



Joelmir Beting e Boris Casóy não perceberam que o microfone ainda estava ligado ao fim do telejornal e passaram a agir como realmente são. Depois vem o tradicional e hipócrita "pedido de desculpas"!... Se a empresa Band não demiti-lo estará demonstrando publicamente sua conivência com o pensamento manifestado.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

DANÇANDO A PAZ E A FRATERNIDADE...

O MUNDO PODERIA DE FATO TER SIDO
ASSIM EM 2009,
MAS PODEMOS AGIR PARA QUE COMECE A SER ASSIM EM 2010:

http://www.youtube.com/watch?v=M6-iC_aYcug

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

NATAL: UM DEUS SOLIDÁRIO







No relato sobre o nascimento de Jesus, o evangelista Lucas coloca na boca do anjo o anúncio: "Não tenham medo! Eu lhes anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu para vocês hoje um libertador". Esse anúncio é feito a pastores que guardavam um rebanho na região. Na sociedade judaica daquele tempo, pastores faziam parte do grupo dos excluídos, bem na base da pirâmidade social, junto com os leprosos e as prostitutas.
Os pastores vão visitar o menino e encontram uma família de artesãos pobre com um recém-nascido precariamente alojado numa manjedoura de animais, por falta de algo melhor. Com o passar dos séculos, nas sociedades cristãs, esse relato transformou-se numa história romântica, sentimental. A realidade de pobreza, de exclusão foi esvaziada, sobretudo na cristandade capitalista.

Os relatos evangélicos não são necessariamente históricos nos seus pormenores mas refletem, antes, uma leitura, uma interpretação de fé sobre o sentido, a pessoa e a vida de Jesus de Nazaré, filho de uma dona-de-casa e de um carpinteiro, e, como o pai, carpinteiro também, portanto, pessoas pobres, mas não miseráveis.

O Natal tornou-se uma grande farra de consumo: tenta-se vender de tudo e as pessoas entram na febre de tentar comprar tudo. Bem na contramão do personagem que celebram e de sua história. Mas, a despeito disso, o Natal tem uma grande magia, uma grande alegria embutida e não foi possível desvencilhar-se dos valores de solidariedade e fraternidade que ele traz (somente o valor da justiça, fortemente presente, tem sido ocultado).

Contemplando o Natal sob a ótica cristã, ou seja, da fé, umas das chaves principais para captar o seu sentido está na Solidariedade. Natal é a inserção concreta na história de um Deus que veio caminhar com seu povo, como companheiro, solidário à humanidade nos seus pobres, excluídos, marginalizados. E isso nos alerta, conforme expressa o monge beneditino Marcelo Barros, que "nenhum problema do mundo, da humanidade, pode nos deixar indiferentes", pois Deus não ficou indiferente às injustiças, às violências, à opressão sobre os pobres, às diversas formas de marginalização. Sem trazer soluções prontas, simplesmente fez-se pessoa humana e "armou sua tenda entre nós" (Jo 1,14). Veio manifestar o divino presente no humano. A trajetória de vida de Jesus de Nazaré nos mostra que quanto mais humanos nos tornamos, mais divinizados nos tornamos também. O humano é algo que ainda estamos por nos tornar.

A pobreza do nascimento do menino, o anúncio feito privilegiadamente aos mais pobres (pastores), vem nos dizer que a alegria e a felicidade não estão à venda nos shopings, nos anúncios comerciais, na comilança. E que solidariedade e fraternidade não é assistencialismo, distribuição de cestas básicas, esmolas, mas caminhar junto, assumir a causa dos excluídos e lutar para construir relações de justiça na sociedade. A Justiça é base e condição de uma sociedade solidária e fraterna. Um Deus que se encarna no meio dos pobres nos revela, sobretudo, que a Salvação (Libertação), vem de baixo, da base, dos pequenos. Não funcionam movimentos vindos de cima, das elites.

Os segundos visitantes do menino são sábios (magos) estrangeiros que, na linguagem poética e simbólica de Lucas, seguiam uma estrela. O sentido da inserção dessas personagens pelo evangelista é que Deus se faz solidário com toda a humanidade, identifica-se com todos os povos (os estrangeiros também eram discriminados na sociedade judaica daquele tempo) e a todos convida para a construção histórica do seu Projeto de fazer nascer a humanidade nova, justa, solidária, fraterna, integrada com a natureza.

Para cristãos e não cristãos, crentes e não crentes, o Natal de Jesus convida à solidariedade com toda a humanidade e todo o cosmos, a partir dos pequenos, dos excluídos. E a nos tornarmos mais e verdadeiramente humanos. E, mais humanos, sabermos que a alegria e a felicidade não se encontram no consumismo, no individualismo, na indiferença.

(ATENÇÃO: para assistir ao vídeo desligue a Música no rodapé do Blog)

* Música: "El Nacimiento" (Ariel Ramírez-Felix Luna) Mercedes Soza - CD "MISA CRIOLLA / mercedes sosa":

Noche anunciada, noche de amor,

Dios ha nacido, pétalo y flor,

todo es silencio y serenidad,

paz a los hombres, es Navidad

En el pesebre mi redentor

es mensajero de paz y amor

cuando sonrie se hace la luz

y en sus bracitos crece una cruz.

Angeles canten sobre el portal

Dios ha nacido, es Navidad.

Esta és la noche que prometió

Dios a los hombres y ya llegó

es Nochebuena, no hay que dormir,

Dios ha nacido, Dios esta aqui.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A MÍDIA MANIQUEÍSTA E A IMAGEM DO MST




A AGÊNCIA ESTADO (do Grupo do jornal O Estado de São Paulo, da família Mesquita) divulgou ontem pesquisa feita pelo Ibope sob encomenda da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre "a imagem do MST". Na verdade trata-se de uma pesquisa de verificação de resultados da permanente campanha de difamação e distorção do MST feita pelas 6 ou 7 famílias que controlam a grande mídia no país, a serviço do agronegócio.
Segundo a pesquisa, que entrevistou 2000 pessoas, 92% dos entrevistados consideram as ocupações ilegais; 64% não tem simpatia pela causa do Movimento; 90% considera que o MST deve lutar pela reforma agrária "sem violência ou 'invasão' de terras"; 85% acha o direito à propriedade privada essencial ao país; 77% entende que quem possui uma propriedade tem o direito de escolher se quer ou não produzir nela. Para 58% dos consultados "o movimento é legítimo porque são trabalhadores querendo terra para trabalhar e morar, mas que não têm condições de pagar por ela".
A pesquisa diz ainda "que o poder público deve utilizar a polícia para cumprir ordens judiciais de retirada dos invasores, mas 69% condena a ação armada dos proprietários de fazendas e 61% entende que o judiciário é o melhor caminho "para resolver a questão das ocupações ilegais". Já 57% dos ouvidos está de acordo com os objetivos do movimento "mas acham que ele está se desviando do seu foco". Os objetivos citados pelos pesquisadores foram três: luta pela terra para produção agrícola, luta pela distribuição de terra aos que não possuem moradia e luta por uma sociedade mais justa e igualitária.
Quanto ao financiamento do MST, 56% dos entrevistados "acredita que o movimento recebe recursos públicos federais". "Um grupo de 82% apoia a CPI para investigar o movimento".
Segundo um resumo da CNA, "69% dos entrevistados ligam o movimento a invasões, 53% a atos de violência, 38% à luta por direito, 32% à reforma agrária e 26% à desobediência. E 54% atribuem os conflitos no campo ao MST".
Os grandes empresários "donos" de meios de comunicação (mídia impressa, televisiva, etc...) insistem em mostrar permanente e exclusivamente uma imagem negativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nos noticiários o Movimento aparece sempre no bloco do crime ("organizado" ou não): tráfico de drogas, assaltos e por aí vai. Há muito tempo está em vigor uma verdadeira campanha de criminalização dos movimentos sociais, na linha de que, desse lado está o mal e do lado da elite econômica e dos cidadãos obedientes e "bem-comportados" está o bem.
Em matéria de imparcialidade o Ibope já mostrou não ser confiável (sabe muito bem como induzir respostas), mas considerando os dados divulgados, concluiríamos que o objetivo dos latifundiários e empresários do agronegócio estaria sendo alcançado: destruir, através da desinformação e da manipulação dos fatos noticiados, a simpatia e a solidariedade da população ao MST.
Nota-se que a "grande mídia" jamais informa que boa parte das gigantescas fazendas deste país são terras griladas, que o agronegócio derruba florestas para plantar soja (que os brasileiros não consomem) e criar gado, que famílias "proprietárias" de meios de comunicação são donas de grandes extensões de terra e estes, sim, são os verdadeiros responsáveis pela violência no campo.
Os meios de comunicação (à excessão da TV pública) jamais mostraram os projetos bem sucedidos do MST na área das cooperativas agrícolas, da agricultura sem agrotóxicos, da educação, da cultura e no resgate de valores como relações de produção mais justas e socializadas, solidariedade, direitos humanos etc...
A "grande mídia" cobra muito liberdade de imprensa, mas nessa "liberdade" não está incluido nosso direito à informação plena e imparcial; liberdade de imprensa, para ela, é informar o que quer, quando quer e como quer. A sociedade precisa reagir a essa ditadura de 6 ou 7 famílias que tentam nos fazer deixar de pensar, perder o senso crítico e jamais nos organizarmos contra os valores de um capitalismo cada vez mais individualista e excludente. Mandar um email para um órgão de imprensa cada vez que percebermos a manipulação da informação já é uma forma de reação, pequena, mas pode-se começar por aí.

* A 1ª foto superior chama-se "Nova Geração" e é do fotógrafo Daniel Zanini H.
** A 2ª foto superior chama-se "Camponesa" e é também de Daniel Zanini H.
Para ver outras fotos de Daniel Zanini H: http://www.flickr.com/photos/zanini/

+ Para conhecer o outro lado da história: www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/351716.shtml http://www.mst.org.br/image/tid http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=21582 http://www.youtube.com/watch?v=y6lHWbhvFes http://www.sjsc.org.br/noticias_det.asp?cod_noticia=903 http://psolsp.org.br/?p=3017

sábado, 12 de dezembro de 2009

TLECUANTLAPCUPEUH



Morena de Guadalupe,


Maria do Tepeyac,


congrega todos os povos


na estrela do teu olhar.


(D. Pedro Casaldáliga)






Nesta data os cristãos católicos de tradição romana e os das tradições ortodoxas celebram a Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe dos povos da América Latina e Protetora dos Direitos Humanos.

A história começa no México, em 1531. Os espanhóis, à custa de muito sangue e terror, tinham se apoderado das terras do povo Asteca, destruído boa parte de seus templos e os mantinham praticamente escravizados. As revoltas dos Astecas eram frequentes. Apesar disso, um certo número de astecas havia se convertido à religião dos dominadores.

Um desses convertidos, chamado a partir do batismo de Juan Diego, em 9 de dezembro de 1531, dirigia-se, cedo, a Tlatelolco (Cidade do México). No caminho, ouviu cantar no alto da pequena colina do Tepeyc a melodia de diversos pássaros, na direção de onde sai o sol. Ouviu que o chamavam de lá. Subindo à colina deparou-se com uma belíssima mulher asteca, "sua roupa parecia o sol e lançava raios". "Inclinou-se diante dela, ouviu seu pensamento e sua palavra sumamente recriadora, muito enobrecedora, como algo que atrai e procura amor".

"Então ela conversou com ele e lhe revelou sua preciosa vontade. Disse-lhe: 'Sabe e guarda seguro em teu coração, filho meu o mais desamparado, que eu sou a sempre Virgem, Santa Maria, Mãe do Deus de Grande Verdade, Teótl, Daquele por quem vivemos, do Criador de Pessoas, do Dono de tudo o que está Próximo e Longe, do Senhor do Céu e da Terra. Quero muito e desejo vivamente que neste lugar construam minha casa. Nela mostrarei e darei às gentes todo o meu amor, minha compaixão, minha ajuda e minha defesa. Porque eu sou a Mãe Misericordiosa, tua e de todas as nações que vivem nessa terra, que me amem, que me falem, me busquem e em mim confiem. Ali hei de ouvir seus lamentos e prover remédio e curar todas as sua misérias, penas e dores'".

Atendendo ao pedido dela, Juan Diego procura o Bispo, D. Zumárraga, que não lhe dá crédito. Num segundo encontro com a Senhora no Tepeyac, ela pede a Juan Diego que volte ao Bispo e insista. O Bispo continua não lhe dando crédito e, para se ver livre, pede uma prova. Informada da exigência de Zumárraga, a Virgem promete ao índio que lhe dará a prova para o Bispo no dia seguinte, 12 de dezembro.

Era inverno e o Tepeyac estava coberto de neve. Mesmo assim, ao chegar ao topo da colina no dia marcado, Juan Diego a encontra coberta de roseiras floridas, rosas de Castela. A Senhora, que mais tarde vai se identificar como Tlecuantlapcupeuh ("Que vem da luz, como a águia vem do fogo"), diz-lhe para colher as rosas. Ela mesma as arruma na manta do índio e ordena-lhe que as leve ao Bispo, pois desta vez ele acreditará.

Zumárraga estava com visitas e escravos na sala quando Juan Diego chegou. Depois de muita demora, vendo que o índio não iria embora enquanto não fosse recebido, atendeu-o. Juan Diego abre diante do Bispo a manta deixando cair as flores enquanto o bispo e os presentes se ajoelham terrivelmente espantados. Ali, diante deles, na manta desenrrolada do índio começou a aparecer a imagem da Mulher da qual o índio se dizia mensageiro. Isto, e não as rosas, era a prova!

Zumárraga mandou construir a ermida no monte Tepeyac. Lá manteve exposta a manta com o ícone de Tlecuantlapcupeuh, que ele chamou de Guadalupe, pois a sonoridade do nome na lingua asteca - náhuatl - era semelhante ao nome de uma imagem negra da Virgem, venerada na Espanha.

Durante muito tempo milhares de astecas realizaram romarias diárias ao monte Tepeyac, pois entendiam que a deusa Coatlicue, a Terra-Mãe, carinhosamente chamada de Tonantzin, havia retornado ao seu templo no alto da colina - que Zumárraga mandara destruir assim que chegou ao México.

O ícone estampado na manta é de uma mulher asteca, vestida com as cores da família imperial asteca - turquesa e rosa-salmão -, com o manto estampado de estrelas e tendo o sol atrás de si. A mulher está grávida, conforme indica o laço abaixo do seio, usado pelas mulheres astecas durante a gestação. Chama a atenção a suavidade, a infinita serenidade e cordialidade da expressão.

A história da Virgem de Guadalupe está contada num texto em idioma náhuatl escrito poucos anos depois das aparições por um frade asteca, que teria ouvido o relato do próprio Juan Diego, chamado NICAN MOPOHUA ("Aqui se narra, em ordem..."). É uma obra-prima de poesia. Os textos acima entre aspas são desse relato.

O Ícone encontra-se exposto na Basílica de Guadalupe, no México, admiravelmente conservado. Sem qualquer tratamento, o tecido não apodreceu e a imagem resistiu a quase 5 séculos de exposição à chuva nas procissões, à fumaça incessante de velas dos milhares de devotos, ao ácido nítrico derramado por descuido durante uma limpeza, a uma bomba que explodiu diante do altar em frente ao ícone em 1921, durante um atentado: tudo ao redor ficou destruído - inclusive o grande crucifixo de bronze ficou inteiramente retorcido. Um estudo realizado pela NASA não encontrou marcas de pincéis na figura e constatou que o material da "tinta", não é de origem mineral ou vegetal ou de qualquer produto químico conhecido. O ícone de Guadalupe permanece um enigma.

A veneração em torno da Virgem de Guadalupe inspirou lutas de libertação do povo asteca e, no séc. XX, nas décadas de 70 e 80, alimentou a espiritualidade libertadora das Comunidades de Base na América Latina. Foi dessa forma que a devoção começou a se popularizar no Brasil.

* Para conhecer o relato completo do NICAN MOPOHUA acesse o link:
http://www.4shared.com/file/196071773/669af0cf/NICAN_MOPOHUA.html

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009






TODA PESSOA TEM DIREITO À VIDA, À LIBERDADE E À SEGURANÇA PESSOAL
(Art. III da Decl. Univ. dos Direitos Humanos)




Hoje, 10 de dezembro, é aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por isso inauguro hoje este Blog, esperando que ele seja um pequeno instrumento a serviço desses Direitos, da defesa da Vida e da Dignidade da Pessoa Humana. Um mínimo tijolinho na construção de uma Humanidade melhor a partir do nosso Aqui e Agora, sem pretensões.

O quadro não é animador: a própria ONU denuncia que mais de 1 bilhão de pessoas no planeta subvivem abaixo da linha da pobreza; guerras e conflitos do gênero envolvendo lutas por terra, pelo direito de se constituir como nação, questões religiosas, hegemonia econômica e/ou militar - entre outras causas - se espalham pelo mundo.

No Brasil ainda há famintos, um sistema de saúde pública precário, violência no campo e na cidade, políticas de segurança baseadas na matança, tortura em delegacias, presídios e abrigos para menores, violência contra a mulher e contra os gays e se fôssemos listar tudo o espaço, obviamente, seria insuficiente. Além disso, as gritantes violações dos Direitos e da Dignidade de pessoas, grupos e segmentos sociais são por demais evidentes.

Fica aqui um convite a abrirmos mais os olhos ao redor, a manter viva a nossa capacidade de indignação, a superar a indiferença, a descrença e os medos, a superar sobretudo o individualismo e a acomodação. É bom lembrar sempre: não acontece somente com os outros: qualquer um de nós pode se tornar soropositivo em relação ao HIV ou ser atingido por uma "bala perdida".

Fica também uma homenagem a todos e todas que se comprometeram e se comprometem com a defesa dos Direitos Humanos na imagem de D. Hélder Câmara, Ernesto "Che" Guevara e Mercedes Soza, queridas e eternas Presenças.
- Link para o texto da DDH: